O CFO conhecia os números. Ele tinha aprovado cada linha do budget, revisado o forecast e construído o modelo que sustentava as projeções apresentadas. Mas durante o Q&A da conference call, quando um analista de Londres perguntou sobre a sensibilidade das margens ao câmbio, houve uma pausa. Não uma pausa de quem calcula. Uma pausa de quem traduz. Nesse intervalo, algo mudou. Não no balanço. Na percepção.

O que os dados mostram

Esta não é uma observação anedótica. Três pesquisadores — François Brochet (Boston University), Patricia Naranjo (Rice University) e Gwen Yu (Harvard Business School) — publicaram no The Accounting Review um estudo que examinou 11.436 transcrições de conference calls de empresas não americanas em 41 países.1 A pergunta era simples: a barreira linguística dos executivos que apresentam resultados afeta a reação do mercado?

A resposta foi sim, e o efeito é mensurável. Calls com maior complexidade linguística — mais erros, mais construções não convencionais, mais "non-plain English" — apresentaram menor volume de negociação intraday e menor movimento de preço, mesmo após controlar o conteúdo dos resultados financeiros. Em termos concretos: um aumento de um desvio padrão na clareza do idioma gerou 3,76% de alta no volume anormal de negociação. O mercado não estava avaliando gramática. Estava avaliando convicção.

O estudo revelou ainda que empresas que contratam um executivo com inglês nativo para participar das calls têm menos erros e maior clareza — sugerindo que a solução não é apenas melhorar o inglês da equipe como um todo, mas garantir que quem fala com o mercado tenha domínio não apenas técnico, mas também comunicacional.

📊 Em números:

11.436 transcrições analisadas · 41 países · 3,76% de aumento em trading volume por desvio padrão de clareza linguística

Fonte: Brochet, Naranjo & Yu, The Accounting Review (2016)

O "silence syndrome" das organizações multilíngues

O fenômeno não se limita a conference calls. Um estudo publicado na Corporate Governance: An International Review (Wiley) analisou nove multinacionais de países nórdicos que adotaram o inglês como língua de trabalho do conselho.2 A conclusão: conselhos não preparados para essa transição apresentaram discussões "empobrecidas e silenciadas". Membros com proficiência mais baixa simplesmente pararam de contribuir. Deixaram de articular discordância. O conselho perdia a diversidade de perspectiva justamente quando mais precisava dela.

Tsedal Neeley, professora de Harvard Business School e autora do livro "The Language of Global Success", descreve o que chamou de "dinâmica quase vulcânica" em organizações multilíngues.3 Barreiras linguísticas criam subgroup faultlines — linhas de fratura invisíveis que dividem equipes entre "os que falam bem inglês" e "os que não falam". A segurança psicológica se erosiona. O profissional talentoso, mas com menos fluência, para de falar. E a organização perde exatamente as contribuições que mais precisava ouvir.

Pesquisa mais recente de Audra Mockaitis (2026, Journal of World Business) cunhou o termo "silence syndrome" para descrever o fenômeno: quando uma empresa adota o inglês como língua corporativa sem investir na qualidade da comunicação, o resultado não é mais inglês — é silêncio.4 Funcionários se desconectam, evitam conversas, encurtam o compartilhamento de conhecimento. A política linguística, em vez de incluir, exclui.

"A formal adoption of a corporate language, typically English, is a top-down directive. It specifies what language communication should happen in. What it does not do is ensure that the resulting communication is meaningful to those on the receiving end."
— Prof. Audra Mockaitis

O custo da falsa fluência

Há um argumento contraintuitivo que emerge da literatura de segurança em aviação e medicina. Reguladores do setor aéreo, após acidentes como Tenerife (1977) e Avianca 052 (1990), estabeleceram um padrão mínimo obrigatório de proficiência em inglês para pilotos e controladores (ICAO Level 4). A lógica deles é reveladora: inglês "bom o suficiente" é mais perigoso que nenhum inglês compartilhado. Porque o gap fica invisível. Uma frase dita com confiança, mas semanticamente imprecisa, é incorporada à decisão como fato. O erro só aparece quando a execução revela que o significado era diferente do que todos acreditavam.

No mundo corporativo, o mecanismo é o mesmo, embora as consequências cheguem em meses, não em segundos. O framework de "false fluency trap" documenta o mesmo padrão em negociações internacionais, revisões de contrato e reuniões de board: quanto mais fluente o non-native speaker soa, menor a probabilidade de os interlocutores verificarem o entendimento mútuo. O resultado são acordos que ambas as partes interpretam de forma diferente — e o custo aparece na auditoria ou na execução do contrato.5

Tático versus estratégico

A distinção que emerge desses dados é simples e frequentemente ignorada. Falar inglês é uma habilidade tática: permite participar, responder, escrever. Liderar em inglês é uma habilidade estratégica: permite direcionar, influenciar, decidir — mesmo sob pressão.

Para o CFO brasileiro que já opera em inglês no dia a dia, o custo não está no erro gramatical. Está na hesitação. No "yes" que substitui um contra-argumento porque formular a discordância em inglês exigiria tempo que a conversa não concede. Na pausa longa que o mercado lê como dúvida — não sobre o idioma, sobre os números.

A literatura de executive presence para profissionais não-nativos confirma: o non-native speaker opera em um "nível de dificuldade mais alto". Enquanto o native speaker gerencia uma camada de estresse (a pressão situacional do momento), o non-native gerencia duas: a pressão situacional e o processamento linguístico em paralelo.6 Isso não é uma fraqueza individual — é uma característica estrutural do ambiente multilíngue. Mas ela pode ser mitigada com preparação específica.

Clareza não é diferencial

Em mercados de capitais, clareza na comunicação não é um diferencial competitivo. É a condição para ser levado a sério. O profissional de finanças que apresenta resultados, defende budget ou negocia termos em inglês não está sendo avaliado pela sua competência técnica isoladamente — está sendo avaliado pela competência com que comunica essa técnica. E o mercado, como os dados mostram, reage a essa comunicação com movimentos concretos de capital.

A implicação prática é clara: para o profissional que já tem o conhecimento técnico, o próximo nível de performance não está em mais horas de estudo gramatical. Está em reduzir a latência entre o que sabe e o que consegue defender em tempo real sob pressão. Em calls com investidores, reuniões de board e negociações internacionais, clareza não é um diferencial. É a condição para ser levado a sério.